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Espiritualidade Afro-Indigena - Medicina da Alma
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Ciganos na Makumba...
É preciso muito cuidado e muita responsabilidade ao falar sobre espiritualidades de povos vivos, de culturas vivas e de tradições que continuam existindo dentro da etnicidade e da experiência histórica desses próprios povos.
Quando a gente fala, por exemplo, de espiritualidade indígena, é preciso lembrar que os povos indígenas continuam vivos, continuam existindo, continuam praticando seus próprios modos de relação com o sagrado, com a terra, com os ancestrais e com as forças do mundo. Com os povos africanos, a mesma coisa. Em território Yorubá, por exemplo, o culto de Orixá continua plenamente vivo, não se trata de um vestígio, de um símbolo esvaziado ou de um repertório estético disponível para consumo. Trata-se de povo vivo, tradição viva e espiritualidade viva.
E não é diferente quando a gente fala de ciganos. Por isso, toda vez que surge uma discussão sobre espiritualidade cigana, especialmente em espaços em que essa prática aparece fora de contextos étnicos diretamente ciganos, eu acho que a conversa precisa ser feita com mais profundidade, com mais responsabilidade e, principalmente, com mais consciência histórica.
Mas para que essa conversa seja honesta, a gente também precisa entender como as espiritualidades se formam na diáspora, porque nem tudo o que existe no Brasil pode ser lido a partir de uma lógica de pureza, de origem intacta ou de continuidade sem transformação.
Eu vou falar especificamente do Rio de Janeiro, porque é o território que eu conheço, é o território onde eu vivi e vivo a Makumba e é o território onde essa mistura histórica de povos, presenças, dores, saberes e espiritualidades aconteceu de forma muito intensa.
O Rio de Janeiro se forma como porto, como zona de trânsito, como cidade de violência colonial, de escravidão, de circulação de gente marginalizada, de povo perseguido e de trocas profundas entre culturas que foram obrigadas a coexistir. Isso significa que a espiritualidade popular carioca não nasce limpa, organizada ou separadinha em caixinhas. Ela nasce no encontro, no conflito, na adaptação e na confluência.
Quando a gente fala da base espiritual do Rio, especialmente daquilo que mais tarde vai desembocar na Makumba Carioca, a gente está falando de uma cidade profundamente marcada por práticas afro, sobretudo de base Bantu, centro-africana, ligadas ao culto aos ancestrais, ao culto aos mortos, à cura, ao transe, ao toque, à incorporação, à consulta, à manipulação de força, ao uso ritual de ervas, objetos e fundamentos. Esse é um ponto muito importante, porque antes de existir essa organização mais recente de linhas e categorias que hoje muita gente conhece, existia uma espiritualidade muito centrada na presença dos mortos, dos ancestrais e das forças espirituais que se manifestavam no corpo através do transe. E esses espíritos, muitas vezes, não se apresentavam como “entidades organizadas” no sentido posterior que a Umbanda mais codificou. Eles se apresentavam como aquilo que eram: mortos, ancestrais, presenças de pessoas que viveram, sofreram, circularam e deixaram marca no mundo.
É aí que a presença cigana dentro da Makumba começa a fazer muito sentido. Porque quando os ciganos entram em contato com esse campo espiritual profundamente marcado pelo culto aos mortos e aos ancestrais, e quando a incorporação acontece como manifestação de espíritos de pessoas que de fato viveram e atravessaram esses mundos marginais da cidade, é absolutamente plausível e natural, que espíritos ciganos também passem a se apresentar no transe. Isso não precisa ser explicado como “invenção esotérica”, nem como “culto cigano formal transplantado”, nem como “apropriação automática”.
Isso pode ser entendido de forma muito mais orgânica e historicamente coerente: se a Makumba Carioca antiga era um campo de manifestação ancestral e espiritual de rua, de margem, de povo morto, de gente que viveu nos circuitos da exclusão, da estrada, da circulação e da sobrevivência, então é muito natural que ciganos espíritos também aparecessem ali.
E isso é muito importante de ser dito, porque muda completamente a forma de entender a presença cigana na Makumba. Não se trata, necessariamente, de dizer que existia no Rio antigo um “culto cigano” separado, organizado e estruturado como uma tradição autônoma dentro da Makumba nos moldes em que algumas pessoas hoje imaginam. O que parece muito mais coerente com a história da cidade e com a própria lógica espiritual da Makumba é pensar que espíritos ciganos passaram a se apresentar dentro de um campo já existente de culto aos mortos, aos ancestrais e às presenças espirituais de rua. E, uma vez que esses espíritos se apresentavam, eles eram lidos e nomeados dentro da própria lógica da Makumba Carioca.
Eu já falei isso aqui outras vezes: a primeira pombagira que eu conheci na minha vida se chama Pombagira Cigana do Cabaré, 35 anos atrás.... E isso não é detalhe, porque eu não conheci, nas makumbas de onde eu me origino, um culto ao “povo cigano do oriente” separado, com um culto próprio destacado da rua e Exús e Pombagiras. Na Makumba que eu vivi, ciganos eram lidos como Povo de Rua, vinham na linha do Povo de Ganga, na gira de Exú e Pombagira, no campo espiritual da margem, do movimento, da circulação, da noite, do comércio simbólico, da sedução, da malandragem do destino, da sorte e da sobrevivência. E é por isso que recebiam esse lugar espiritual e esse nome: Exu Cigano, Pombagira Cigana.
Esse “adjetivo” não era gratuito, ele não vinha de uma tentativa de “enfeitar” a entidade com uma fantasia exótica, ele vinha do reconhecimento de uma presença espiritual que carregava certas marcas de estrada, de trânsito, de leitura, de jogo, de deslocamento, de mobilidade e de uma experiência de mundo que a rua reconhecia como cigana... E isso só se torna possível porque a Makumba do Rio sempre foi um espaço profundamente aberto à leitura espiritual da experiência social concreta. A rua do Rio reconhece tipos espirituais, ela reconhece o malandro, a prostituta, o capoeira, o marinheiro, o boiadeiro, o povo de cemitério, o povo de encruza, o povo de demanda. Então não é estranho que também reconheça o cigano.
A estrutura profunda da Makumba Carioca é negra, afro-diaspórica e fortemente Bantu. O chão da Makumba está no Calundu, na Cabula, nas religiosidades centro-africanas recriadas no Brasil, no culto aos mortos, na manipulação de força, na ancestralidade, no corpo, na rua, no fundamento e no destino. Os ciganos entram nesse chão porque também fazem parte, historicamente, da paisagem marginal e espiritual da cidade...
Então, para mim, a forma mais séria de entender isso é a seguinte: quando a Makumba Carioca se forma como um culto profundamente marcado pela ancestralidade e pelo transe de mortos e presenças espirituais ligadas à vida popular da cidade, ela naturalmente se torna um campo em que espíritos de diversas margens sociais também podem surgir, e entre essas margens estavam, sim, os ciganos. Por isso a presença cigana dentro da Makumba não precisa ser explicada nem como fraude, nem como moda tardia, nem como importação mística sem chão. Ela pode ser lida como parte de uma espiritualidade urbana ancestralizada, em que mortos de diferentes circuitos sociais passam a se apresentar no corpo dos praticantes.
O problema começa quando, em vez de tratar isso com densidade histórica e espiritual, as pessoas achatam tudo em caricatura. Aí o cigano deixa de ser entendido como presença espiritual possível dentro de uma história de cidade, de diáspora e de ancestralidade, e vira só figurino, lenço, moeda, baralho e exotização. E isso é problemático, tanto para os povos ciganos reais quanto para a própria Makumba. Porque apaga, de um lado, a existência concreta dos povos ciganos como povos vivos, e apaga, do outro, a raiz afro profunda da Makumba Carioca, reduzindo um fenômeno espiritual complexo a uma estética superficial.
Então, quando eu penso na presença cigana dentro da Makumba, eu penso a partir dessa chave: não como um culto cigano étnico transplantado de forma pura, nem como uma invenção sem fundamento, mas como uma aparição espiritual possível e coerente dentro de uma tradição de transe, culto aos mortos e ancestralidade que sempre foi muito forte no Rio de Janeiro. Dentro desse cenário, é absolutamente possível entender por que espíritos ciganos começaram a surgir ainda nas antigas experiências da Cabula, da Makumba e depois ressoaram de outras formas na Umbanda. E isso, para mim, faz muito mais sentido do que tentar negar essa presença em nome de uma pureza histórica que nunca existiu, ou então romantizá-la sem critério.
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