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Makumba, Umbanda é Candomblé: nomenclatura, legitimidade e ritos invisibilizados
Reginaldo Prandi toca num ponto central para a compreensão das religiões afro-brasileiras no Sudeste: o peso da nomenclatura e o modo como certos modelos se tornaram hegemônicos na produção acadêmica e no imaginário religioso. Ele afirma:
“Macumba que, de qualquer modo, nos levará ao surgimento da Umbanda como religião independente no primeiro quartel deste século, mas que poderia ter sido perfeitamente denominada Candomblé, desde que se deixassem de lado os modelos dos minoritários candomblés nagôs da Bahia, que monopolizaram a atenção dos pesquisadores desde 1890.”
Essa frase é decisiva porque desloca o problema da essência para o olhar. Prandi não está dizendo que a Makumba “ era” Candomblé, mas que ela deixou de ser reconhecida como tal porque não correspondia ao modelo nagô-baiano que se tornou parâmetro de autenticidade.
A hegemonia do modelo Nagô e o apagamento de outras formas de Candomblé.
Desde o final do século XIX, os candomblés nagôs da Bahia, por uma combinação de fatores históricos, políticos e intelectuais, passaram a ocupar o lugar de referência normativa: maior preservação de línguas africanas; estrutura iniciática mais visível; interesse de pesquisadores como Nina Rodrigues; e, mais tarde, legitimação institucional.
Esse processo teve como efeito colateral a desqualificação simbólica de outras formas de culto afro-brasileiro, especialmente aquelas: de matriz Bantu, urbanas, híbridas, com maior uso do português, e com forte presença de entidades ligadas ao território brasileiro.
É nesse contexto que Makumba passa a ser lida não como tradição, mas como: confusão, degeneração, etapa anterior, ou prática “menos desenvolvida”.
Prandi, ao afirmar que ela poderia ter sido perfeitamente denominada Candomblé, desmonta essa hierarquia implícita.
Makumba como campo religioso completo e não como falta.
Quando se observa a Makumba histórica do Rio de Janeiro, em diálogo com João do Rio e Diana Brown (volte ao post anterior), percebe-se que ela reunia: transe estruturado; cantos e ritmos próprios; sistemas de entidades; fundamentos de proteção, cura, equilíbrio e feitura espiritual; segredos internos transmitidos oralmente.
Ou seja, não lhe faltava densidade ritual.
O que a diferenciava não era a ausência de fundamento, mas: a forma de organização; a linguagem simbólica; e a relação direta com a vida urbana.
Por isso, o problema não é religioso, mas epistemológico: quem decide o que é ou não “Candomblé”?
Umbanda: ruptura pública, continuidade interna
A Umbanda surge, no início do século XX, como religião independente, mas essa independência é mais discursiva do que prática. Há uma clara tentativa de: higienização simbólica; aproximação com o kardecismo; diálogo com o catolicismo; afastamento da imagem criminalizada da Makumba.
Nesse processo, cria-se o que hoje costuma ser chamado de Umbanda Kardecista/Católica, marcada por: forte ênfase moral; discursos cristianizados; ritos externos mais simplificados; e rejeição explícita da palavra “Makumba”.
No entanto, e este é o ponto essencial, isso não esgota a Umbanda.
Umbanda/Makumba é a questão dos ritos internos.
Muitas formas de Umbanda que descendem diretamente da Makumba preservaram ritos internos complexos, que: não são públicos, não são exibidos, não são facilmente reconhecíveis por quem observa apenas a gira aberta.
Nessas casas, há: fundamentos de chão; segredos de assentamento; processos de fortalecimento espiritual; hierarquias invisíveis; e cuidados e rituais de iniciação que não deixam a desejar a nenhum culto considerado “tradicional” ou “forte”.
A diferença central entre a Umbanda Kardecista/Católica e a Umbanda/Makumba não está na presença ou ausência de espiritualidade, mas: na profundidade dos ritos internos,
na relação com o segredo, e na manutenção de fundamentos afro-diaspóricos que não foram publicamente abandonados...
O Candomblé como categoria ampliada, e não exclusiva.
Quando Prandi afirma que a Makumba poderia ter sido chamada de Candomblé, ele não está se referindo a uma tipologia específica (como “de caboclo” ou “de nação”), mas ao uso ampliado e histórico da palavra Candomblé como designação genérica no passado, de cultos afro-brasileiros baseados em transe, canto, ritmo e organização ritual.
Antes da consolidação dos modelos nagôs baianos como padrão, Candomblé nomeava uma diversidade de práticas afro-diaspóricas, muitas delas: marcadas pela presença de entidades locais, profundamente bantuizadas, abertas à incorporação do território brasileiro, e sem a rigidez classificatória que seria imposta posteriormente.
Nesse sentido, a Makumba Carioca se insere plenamente nesse campo mais amplo do Candomblé enquanto forma religiosa, ainda que não corresponda ao modelo que se tornou hegemônico na academia e no reconhecimento público.
O nome como campo de disputa.
O que Prandi nos permite enxergar é que: Makumba, Umbanda e Candomblé não são degraus de uma evolução linear, mas nomes em disputa, usados para legitimar ou deslegitimar práticas.
Se os modelos nagôs da Bahia não tivessem monopolizado a atenção acadêmica desde 1890, como ele afirma, talvez: a Makumba tivesse sido reconhecida como um Candomblé urbano Bantu; a Umbanda não precisasse se justificar pela via kardecista; e o debate sobre “força” e “tradição” fosse menos moral e mais histórico.
No fim, a questão não é o nome que se dá, mas: o que se faz, o que se guarda e o que se transmite no interior do culto.
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