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Espiritualidade Afro-Indigena - Medicina da Alma
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Da Invenção à Tradição: A Umbanda, o Legado Bantu e as Hibridações
Antes de irmos ao assunto, este canal tem compromisso com a história para além dos meus gostos e vivências pessoais.
Bora, que o assunto é longo!
Em qualquer discussão sobre religião, é importante, acima de tudo, entender que religião é uma criação do ser humano. Todas as religiões, até as mais tradicionais e milenares, em algum momento foram inventadas por seres humanos. E, quando falamos de religiões desenvolvidas na diáspora, é importante entender a construção dessas religiões a partir de uma reimaginação e ressignificação dos próprios povos africanos que estavam aqui no Brasil, quando essas religiões começaram a ser alicerçadas. Essas reimaginações foram feitas de acordo com o cenário da época e os limites impostos por esse contexto.
O grande problema no mundo digital sobre as religiões afro-brasileiras é que muitas discussões são baseadas em limites pessoais, achismos e gostos individuais. Muitas vezes, uma pessoa considera sua experiência com uma vertente como absoluta e a mais verdadeira, desprezando toda uma história. Negar que existe uma diversidade de religiões afro e muitas sob o mesmo termo guarda-chuva é negar a história, tanto da África quanto do Brasil.
A Umbanda, a partir dos anos quarenta, marca um momento significativo nesse contexto. Com os primeiros congressos de Umbanda, surgem movimentos que se distanciam das raízes africanas e indígenas para que essa prática espiritual seja vista socialmente como superior, melhor e mais iluminada. Em contrapartida, há um movimento liderado por Tata Tancredo, defensor feroz das tradições de uma Umbanda que mantém sua ligação com as origens africanas e é reimaginada aqui no Brasil a partir dessas referências culturais.
É interessante sinalizar aqui que Tata Tancredo afirmava, com muita ênfase, que a origem da Umbanda era Lunda Kioko, entre os povos Tchokwe. Além disso, autores angolanos como Oscar Ribas e José Redinha afirmam que, em Angola, havia um culto chamado "umbanda", um culto de possessão espiritual. Redinha, inclusive, afirma que muito desse culto estava em Lunda. Quando analisamos o material disponível atualmente sobre esses povos Bantu na diáspora, percebemos que Tata Tancredo tinha razão. Muito do que se pratica na Umbanda, entendida como mais próxima da África, mantém signos fortíssimos de povos Bantu e reflete como foram reimaginados na diáspora.
Acho legítimo que pessoas se identifiquem com o que ficou conhecido como "Umbanda Branca", mas é preciso ter cuidado com o quanto essa nomenclatura nega e descarta origens. Sem contar que não é porque uma pessoa só teve como referência essa vertente de Umbanda que outras não existam; elas existem e são muito antigas. Minha avó nunca falou em Zélio de Moraes, nunca falou em Kardec, naturalmente porque a Umbanda que ela conheceu não foi a do mito... É óbvio que, a partir dessa distinção entre uma Umbanda originada de kardecistas que africanizam o espiritismo e a visão de Tata Tancredo, surgiram dois grupos distintos, esses grupos desenvolveram suas próprias casas e, naturalmente, outras vertentes começaram a surgir a partir dessas duas linhas principais.
É fundamental reconhecer que nem o Candomblé nem nenhuma outra forma de espiritualidade afro-brasileira pode deslegitimar as diversas expressões que surgiram na diáspora. O Candomblé também foi, em algum momento, uma invenção; é resultado de um processo histórico de reinterpretação e adaptação das práticas africanas em um novo contexto cultural. Cada uma dessas vertentes espirituais tem seu valor e significado, refletindo as experiências únicas das comunidades que as praticam.
E, quando o assunto é Orixá, existe todo um monopólio em torno do tema. Como eu disse, todas as religiões foram inventadas e reinventadas inúmeras vezes. Sugiro a leitura de "A Invenção das Tradições", pois ela traz reflexões valiosas sobre como os conceitos religiosos são moldados ao longo do tempo.
Se a Umbanda tem origem Bantu, por que ela cultua Orixás?
Bom, sabemos que os Bantu foram os primeiros a chegar ao Brasil e, por muito tempo, praticavam suas espiritualidades alheias a outras práticas. Mas era óbvio que, com o intercâmbio com indígenas e outros povos africanos, haveria uma hibridação de cultos, crenças e práticas. É histórico e registrado por nomes como Arthur Ramos, Nivio Salles, Liana Trindade, José Magnani e Etiene Salles que, em algum momento, a espiritualidade Bantu absorve a espiritualidade Yorubá e, a partir daí, se forma a Makumba.
"Como culto, a Macumba significou a reconstrução das concepções do mundo bantu em situação urbana, onde tanto os elementos míticos sudaneses como os componentes da magia europeia irão ser reinterpretados consoante as estruturas de significados do pensamento bantu."
Liana Trindade
Ou seja, muito da espiritualidade Yorubá foi reinterpretada pela ótica Bantu, e os Yorubás contribuíram para essa hibridação; os Bantu não roubaram dos Yorubás.
Zezinho França traz uma ideia interessante sobre como N'kisi, sendo uma força da natureza e não uma vivência humana, pode absorver um corpo através do transe. Essa força bruta da natureza (Hamba) é contida e transformada, a partir de rituais e iniciação, em N'kisi. A partir daí, uma força ancestral (Bakulu) vem representar a força original. É interessante perceber que é a partir dessa ideia que a Makumba reinterpreta os Orixás, vendo-os como ancestrais divinizados, chamados de "Bacuros", que posteriormente serão designados como falangeiros nas "umbandas brancas". Ou seja, a Makumba não usurpou os Orixás, e estes não foram introduzidos pelas "umbandas brancas"; pelo contrário, essas práticas removeram ou deslocaram os Orixás da sua visão de origem e da hibridação Bantu.
Por tudo isso, nem o Candomblé, nem as umbandas brancas, ou mesmo quem só teve como referência uma Umbanda já toda mexida têm o direito de deslegitimar o que não conhecem, principalmente porque é parte da história da diáspora.
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