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Espiritualidade Afro-Indigena - Medicina da Alma
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Ogum de Ronda, as makumbas, o Candomblé Amburaxó, a marca de motos Honda e os intolerantes
No livro "Da Minha Folha", organizado pelo Dr. Luiz Assunção (UFRN), há um capítulo dedicado às cantigas de Ogum na Umbanda, no qual ele aborda as críticas feitas à Umbanda por praticantes de outras espiritualidades afro-indígenas. Assunção utiliza, inclusive, parte da tradução de um Oríkì em língua Yorùbá para mostrar que, mesmo dentro dessa tradição, há referências a títulos de Orixás semelhantes aos utilizados na Umbanda, como Ogum Sete Espadas, Ogum Beira-Mar ou Ogum de Ronda. Um trecho do texto ilustra isso claramente:
“(...) Por isso chamam-no hoje Ogum Mejejê l’Odè Irê — Ogum das Sete Partes de Irê (...)”.
Essa citação serve como introdução para refletir sobre um deboche recente nas redes sociais, feito por pessoas que preferem o conflito ao conhecimento. O alvo da vez foi a figura de "Ogum de Ronda", ironizada por meio de uma imagem de Ogum sobre uma moto, numa tentativa de associar essa representação sagrada à marca de motos Honda. Esse tipo de abordagem revela mais sobre quem ridiculariza do que sobre aquilo que é ridicularizado, pois ignora completamente os fundamentos simbólicos e históricos dessas expressões religiosas.
É importante lembrar que Ogum é, tradicionalmente, invocado como protetor, razão pela qual é frequentemente assentado na entrada dos terreiros, inclusive em makumbas antigas, no Omolokô e em tantas outras tradições afro-brasileiras que não se enquadram no modelo do Candomblé Nagô... Essa posição não é aleatória, ela expressa uma lógica espiritual de guarda, de contenção e de vigilância dos caminhos, garantindo que aquilo que entra e sai do espaço ritual esteja sob controle.
Ogum de Ronda, especificamente, é compreendido como uma força que protege o terreiro e os rituais, sendo comumente invocado no início e no encerramento das giras. Ele é um atalaia, termo encontrado em antigas cantigas e que tem origem árabe, significando vigia, o que nos leva a refletir sobre a presença de influências malês nas makumbas e como essas tradições são atravessadas por múltiplas camadas culturais e históricas.
É interessante também compreender o significado da palavra ronda, trata-se da ação ou efeito de rondar, uma visita ou inspeção feita com o intuito de manter a tranquilidade pública. Pode ainda designar um grupo de pessoas, geralmente soldados ou policiais que percorre determinados locais urbanos para garantir a ordem. Quando esse termo é aplicado a Ogum, ele não é uma invenção aleatória, mas uma tradução simbólica coerente com sua função espiritual.
Ou seja, trata-se de um termo que expressa, em sua essência, atributos profundamente ligados ao Orixá Ogum, vigilância, proteção, manutenção da ordem e da segurança. É a linguagem do cotidiano sendo atravessada pelo sagrado, algo muito comum nas tradições afro-diaspóricas, especialmente nas makumbas, que sempre dialogaram com a vida urbana e com a realidade concreta das pessoas.
Vale lembrar também que Ogum de Ronda era cultuado no Candomblé Kongo-Angola Amburaxó. Uma análise mais profunda dessa raiz revela o quanto as antigas makumbas eram próximas em estrutura e fundamento ao Amburaxó, tanto na organização ritual quanto na forma de manifestação das entidades e divindades. Estudar o Amburaxó, inclusive, é também buscar as origens da Makumba e da própria Umbanda, pois ali se encontram elementos fundamentais que ajudam a compreender essas continuidades históricas e espirituais.
Há relatos importantes que reforçam essa conexão; Zezinho França aponta que, no Amburaxó, as divindades eram tão vivas e presentes que participavam do culto para além da dança. Atuavam diretamente nas funções rituais, inclusive realizando ebós, bebiam, fumavam, aconselhavam, orientavam e interferiam nos processos espirituais de forma concreta. Isso demonstra um nível de interação espiritual muito mais direto e orgânico do que muitas vezes se reconhece hoje, revelando uma dinâmica em que o sagrado não se limita à representação, mas se manifesta de maneira ativa dentro do rito.
Me lembro exatamente dos momentos em que se invocava Ogum de Ronda na gira, no início ou no final. No início, para segurar a gira, firmar o espaço, conter qualquer interferência e garantir que tudo transcorresse dentro da ordem espiritual. No final, para limpar, desfazer o que precisava ser desfeito e assegurar que cada pessoa voltasse para casa em segurança, com seus caminhos guardados.
É importante lembrar que muitas makumbas aconteciam de madrugada. Não era por acaso, era estratégia, um jeito de fugir da intervenção da polícia que, vez ou outra, aparecia para acabar com a gira, interromper o culto, dispersar as pessoas. Esse contexto revela muito sobre o que essas práticas enfrentavam e, ao mesmo tempo, sobre a força que sustentava tudo aquilo. Ou seja, era Ogum de Ronda que segurava de fato a gira, não apenas no plano simbólico, mas na vivência concreta de quem estava ali.
Havia também o gesto ritual que marcava essa presença; um copo com água e uma vela cruzavam os quatro cantos do terreiro, firmando o espaço, selando os limites, ativando a proteção. Enquanto isso, a cantiga ecoava, não como um simples canto, mas como chamado e confirmação de uma força em ação:
"Seo Ogum de Ronda, já mandou rondar
Já mandou rondar, mariwô"
E naquele momento, não era só uma lembrança de Ogum, era a própria ronda acontecendo, o terreiro sendo vigiado, sustentado e protegido por uma presença que se fazia viva no rito.
E um dado curioso reforça o equívoco das críticas infundadas, a fundação do Amburaxó é datada de 1912, enquanto a criação da marca de motos Honda só ocorreu em 1948. Ou seja, a associação entre Ogum de Ronda e a Honda é não apenas anacrônica, mas revela como intolerantes preferem o escárnio ao saber, ignorando a história, os contextos e os significados para sustentar uma visão rasa e desrespeitosa.
No fim das contas, o que está em jogo não é apenas o nome de um Orixá, mas a tentativa de deslegitimar formas de espiritualidade que sempre existiram à margem dos modelos considerados mais “puros” ou institucionalizados. E é justamente nessas margens que muita coisa se preservou, se reinventou e continua viva até hoje.
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