Pular para o conteúdo principal

Destaques

Terreiro Livre - Espiritualidade Afro-Indígena | Cultura | Bem Viver

O Terreiro Livre nasce como um espaço aberto e plural, onde a espiritualidade se vive como experiência compartilhada, livre de dogmas ou aprisionamentos institucionais. É um território de liberdade espiritual e política, comprometido com a preservação da ancestralidade e o fortalecimento da comunidade, que acolhe a diversidade sem exigir renúncias a crenças pessoais, mas questiona crenças limitantes, o fantástico e as superstições. Aqui, o sagrado se manifesta no corpo, na terra, na música, nas danças, nas palavras e nas mãos que cuidam, com profundo respeito à força vital presente em todas as coisas. Terreiro Livre é um sonho coletivo que se encarna, ganha forma e força, tornando-se um modelo autêntico de espiritualidade afro-indígena-brasileira, que honra o diálogo entre o antigo e o contemporâneo. Nasce do anseio de reconstruir um espaço onde as tradições Bantu, Yorubá, Ameríndias e práticas populares de cura e magia do Brasil profundo possam se expressar em liberdade plena, com pro...

Entre Raiz e Renovação: a Makumba como Memória Viva e Modelo de Mundo


 

A Makumba antiga e as novas makumbas não devem ser colocadas em oposição simplista, como se uma anulasse a outra. O que existe, na verdade, é um movimento contínuo de transformação. A sociedade muda, as pessoas mudam, e com isso mudam também os cenários políticos, religiosos, comportamentais e estéticos. Esse é o fluxo natural da vida.


Quando olho para trás, tomando como referência o tempo da minha avó, ali pela década de 50 até minha própria entrada na macumba, nos anos 1980, não afirmo que tudo era melhor. Nunca foi, onde existem pessoas, existem conflitos, limites e contradições. Mas havia algo que me marca profundamente: a forma de entrega, a fé e o respeito tinham outra densidade, outro peso, outra presença.


Isso não me coloca contra a renovação; pelo contrário, sou favorável a ela, especialmente quando se trata de problematizar estruturas que já não fazem sentido, que não dialogam com o tempo presente ou que precisam ser revistas diante das lutas contemporâneas por direitos e dignidade. O mundo atual exige reflexão constante, e isso também atravessa as práticas espirituais.


No entanto, existe uma linha delicada entre renovar e apagar. Quando a renovação passa a significar a ruptura completa com a raiz, ou quando alguém tenta reorganizar a história inteira para caber dentro de uma visão individual, e ainda impor isso como verdade absoluta, entramos em um terreno perigoso. Porque tradição não é propriedade de uma pessoa, tradição é construção coletiva, histórica, ancestral.


Gosto sempre de indicar o livro "A Invenção das Tradições", justamente porque ele nos ajuda a compreender que toda tradição é, de alguma forma, dinâmica. Ela se move, se adapta, responde a contextos sociais. As mudanças, sejam políticas, religiosas ou culturais, não surgem do nada; elas são sintomas do tempo em que vivemos, negar isso seria negar a própria vida.


E tem um ponto que atravessa tudo isso, que é a questão do modelo mental. A forma como cada pessoa busca uma tradição ou uma renovação está profundamente ligada à maneira como ela enxerga o mundo, como ela organiza suas referências internas, seus valores e suas experiências. O meu modelo mental foi construído dentro dessa Makumba mais antiga, é a partir desse lugar que eu sinto, interpreto e me relaciono com o sagrado. Mesmo vivendo nesse mundo contemporâneo, atravessado por transformações constantes, rápidas e, muitas vezes, intensas, essa base continua sendo o meu eixo.


Ainda assim, há algo muito valioso em ter atravessado diferentes tempos, eu não posso voltar ao passado, mas ele não desapareceu. Ele vive em mim; está na forma como compreendo a Makumba, na forma como sinto, na forma como respeito. Eu também renovei minha prática, inevitavelmente, mas a essência, a raiz, aquilo que me formou, permanece intacto dentro de mim, e não há desejo algum de me libertar disso.


Por isso, quando alguém me pergunta por onde começar, eu sempre digo: procure as casas antigas, procure os lugares mais afastados dos centros, os subúrbios, os territórios menos visibilizados. Porque é ali que, muitas vezes, a raiz ainda respira com mais força. Não como algo congelado no tempo, mas como uma presença viva, que resiste, que se adapta sem se perder de si.

Postagens mais visitadas